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Marcenaria Moderna, o que é?

Atualizado: Jun 18

Aqui na Semente dividimos a marcenaria em três tipos, um deles a marcenaria moderna. Porque ela é tão importante hoje e como ela ajuda o desenvolvimento de projetos?



A divisão de tipos de marcenaria é geralmente uma discussão bem polêmica pois de fato existem várias correntes sobre o tema, como por exemplo: a marcenaria japonesa, a marcenaria tradicional inglesa, etc. Para não entrarmos no mérito mais específico, aqui na Semente dividimos o tema em 3 partes bem definidas, são elas: marcenaria tradicional, marcenaria moderna e mais recentemente a marcenaria digital.


“As características de cada tipo de marcenaria não são exclusivas e muitos produtos são feitos misturando as três”

Nesse post abordaremos a marcenaria mais conhecida do público geral, a marcenaria moderna.


Cenário


Para entender a marcenaria moderna, precisamos entender o contexto no qual estamos incluídos. É fato que a dinâmica de trabalho mudou de forma global e trabalhos muito mais horas do que nossos antepassados. O advento da tecnologia tornou tudo instantâneo, comunicação, compra, leitura, conhecimento, tudo isso à palma da mão. Era de se esperar que outros mercados, como a marcenaria, fossem demandar também essa rapidez.

Além de rapidez vivemos em um mundo extremamente fluido, onde o que as pessoas querem hoje pode ser completamente diferente do que elas desejam amanhã. Isso porque são criadas tendências de consumo para que se possa vender mais. Nesse movimento muitos objetos acabam sendo descartados de forma rápida e a demanda por novos cresce a cada dia.

Obviamente nossas florestas não iriam aguentar tamanha demanda da forma como era extraída madeira no início do século. Hoje não podemos e não devemos usar madeiras que eram usadas, para isso criamos os materiais derivados da madeira, como o compensado, o MDF, o OSB, entre outros. Isso permitiu que usássemos mais madeira de replantio e deixássemos nossas florestas em regeneração (a teoria é essa, na prática as florestas ainda sangram).

Então se pararmos para pensar no mobiliário que era feito no começo do século XX, com uso de madeiras como Jacarandá, Imbuia e Mogno, com detalhes entalhados à mão, um nível de detalhe muito grande, pouco uso de ferragens (até porque não existiam tantas), será que ele se encaixaria num mundo como o descrito acima?



Ferramentas na Marcenaria Moderna


A Marcenaria veio se moldando junto à esse mundo conectado e tecnológico e se tornou muito mais produtiva e com produtos menos duradouros em certos aspectos.

Em primeiro lugar evolução tecnológica nos trouxe máquinas incríveis e que facilitam muito o trabalho no ofício. Lixadeiras orbitais, roto orbitais, parafusadeiras, furadeiras, talhadeiras, serras elétricas (não aquela do Jason, mas serras circulares e tico-ticos). Tudo isso permitiu com que o trabalho fosse feito de forma mais rápida e em menos espaço (pois as máquinas são portáteis).


Então a primeira característica deste tipo de marcenaria é o uso de máquinas elétricas e portáteis que substituíram em parte ferramentas manuais como serrotes, arcos de pua, furadeiras manuais, formões, entre outras.


Materiais usados


A evolução do uso da madeira para materiais derivados também permitiu maior rapidez e dinamicidade. Uma das razões se deve ao fato de que os derivados normalmente são vendidos em chapas de tamanho maior que a madeira maciça, por exemplo, uma chapa de compensado possui um tamanho padrão de 2,20 por 1,60m, uma medida que talvez nenhum tronco do mundo consiga alcançar. Isso torna o trabalho mais rápido, pois não precisará ser feita emenda de tábuas e o material pode ser cortado diretamente no tamanho desejado. Outra razão é que todos esses materiais vêm de fábrica com um pré acabamento, diferente da madeira maciça. A madeira maciça como um material completamente natural e vivo sofre variações muito grandes em sua estrutura devido à condições do ambiente externo, ela empena, torce, cria casca, etc, e tudo isso demanda uma preparação do material antes de propriamente usá-lo para a confecção. As chapas derivadas não possuem tamanha variação por já terem passado por processos químicos e ter sua estrutura modificada.

Materiais como MDF e Compensado dão também muita fluidez e dinamicidade dentro do mercado moveleiro. São materiais mais acessíveis em termos econômicos, por isso produtos podem ser facilmente trocados e descartados se por ventura uma nova tendência for criada. Sem contar que chapas como MDF, MDP, alguns compensados e aglomerados podem vir com padrão de acabamento de fábrica, por exemplo: materiais que imitam textura de madeira, cores lisas, padrões geométricos, pedra, cimento, cerâmica, tijolo, enfim uma infinidade de acabamentos na superfície da sua chapa, bastando você cortar e montar. Essa facilidade toda porém traz uma grande limitação em termos de formas, explico, como o acabamento é feito apenas na parte de fora da chapa, como uma casca, desenhos, encaixes e entalhes feitos antes em madeira maciça não são possíveis, uma vez que o interior no material ficaria completamente exposto. Por isso vemos uma grande tendência em móveis cada vez mais lisos, sem detalhes, minimalistas.



Em termos de resistência do material também temos algumas diferenças em relação a madeira maciça. Alguns materiais como o compensado e o OSB, por exemplo tem resistência superior à mesma espécie de madeira do qual ele é feito, isso se deve à distribuição das fibras de maneira alternada na chapa. Já o MDF e Aglomerado são materiais de pouca resistência mecânica, pois possuem fibras muito curas, quase inexistentes, sua resistência se deve em grande parte à resina que aglutina todo o material.

Já deu pra ver que outra característica é o uso de materiais industriais como chapas e placas, então partimos para outra área.



Acabamentos


Como já descrito anteriormente muitos materiais usados na marcenaria moderna já vem com acabamento de fábrica em sua superfície, porém ainda existem alguns acabamentos que podem e devem ser feitos nesses e também em materiais que não possuem esse revestimento.

Nas chapas já revestidas de fábrica o trabalho é menor, porém existente. Quando cortamos as peças as partes laterais delas expõem o material cru, ou seja, a borda do mdf, a borda do compensado, etc. Para isso deve-se usar as chamadas fitas de borda, materiais plásticos colados nas laterais, normalmente acompanhando a cor e textura da chapa, para que o peça fique revestida em todas suas faces de maneira homogênea, ou se preferir, com cores e/ou texturas diferentes.

Quando o material não vem laminado de fábrica, como a maioria dos compensados, é preciso um acabamento mais cuidadosos e trabalhado. Nesse materiais é preciso fazer lixamento para retirada de farpas, irregularidades e arranhões, e demanda-se a aplicação de acabamentos de superfície. Nesse contexto três acabamentos são muito usados, são eles: Seladoras, Vernizes, e cera. A seladora funciona como um pré acabamento, facilitando o trabalho com lixas e selando o material de uma maneira muito rápida (quesito essencial nessa marcenaria), porém muitas vez a seladora é usada como acabamento final. Vernizes criam a película protetora em torno do material antes exposto. A cera funciona como acabamento superficial mais voltado para estética e para a função tátil. Combinados esses três materiais funcionam muito bem para materiais crus, ou seja sem películas superficiais.

Porém se deseja-se cores lisas, texturas e imitações pode-se usar laminados sobre as chapas. O mais conhecidos desses materiais se chama Fórmica (que na verdade é uma marca) ou Revestimento de resina melamínica. Além desse material existem laminados PET, Laminados naturais e pré compostos, entre outros. Todos funcionam basicamente da mesma forma, deve-se utilizar cola de contato nas duas superfícies a serem coladas e tomar cuidado para não formar bolhas, para isso existem técnicas que você pode conferir aqui. A única diferença são os laminados naturais e pré compostos, que após a colagem devem ter o mesmo acabamento que materiais expostos, como visto já acima.

Ferragens


A constante evolução fabril nos trouxe inúmeros tipos de ferragens que pode-se usar para facilitar e agilizar a produção de um móvel ou objeto. Corrediças, dobradiças, pistões pneumáticos, puxadores, perfis, etc, são materiais mais usados nesse tipo de marcenaria. Não deve-se ter a preocupação de esconder ou tentar substituir o uso delas, pois estas facilitam e muito também a relação do usuário com o objeto, uma vez que diminuem problemas como gavetas emperradas, portas empenadas e arrastando no móvel, portas que batem com muito força, tudo isso pode ser sanado com uso de ferragens disponíveis.

Cada ferragem tem um tipo de instalação diferente e uma função diferente. Uma dobradiça de mola que abre 180° ou 270° é diferente de uma dobradiça convencional que abre 110°. Uma corrediça com amortecedor para a gaveta não bater é diferente de uma corrediça de rolamento mais comumente usada. Um pistão que segura uma cama box quando esta abre, não é igual à um pistão de porta de cozinha. A gama é enorme e ganhou muito destaque recentemente com a maior notoriedade das "tiny houses". Paredes que se movem, camas que viram mesas, prateleira que giram e fecham sob a parede, escrivaninhas que viram armários, etc, etc. Tudo isso está inserido aqui nessa marcenaria.


Armário delivery?


Todas as funções descritas acima foram evoluindo com o tempo e a necessidade do mercado de produtos mais rápidos e fáceis de serem montados e usados. E talvez um avança ainda maior está aproximando o consumidor de se tornar um prosumidor, marceneiros em projetistas e montadores. As madeireiras sofreram muito com a evolução de grandes corporações e lojas como a Ikea, Tok e Stok, etc. Projetos antes feitos de forma pessoal passaram a ir para o grande mercado que adquire seu material diretamente do fornecedor. As madeireiras então se reinventaram e trouxeram ainda mais rapidez para o desenvolvimento de um projeto.

Com máquinas de corte de alta precisão as madeireiras começaram a investir em serviços. Portanto hoje pode-se demandar todas a peças cortadas (até aí nada muito novo), furadas, com fitas de borda, isso tudo feito de forma automatizada. Portanto basta-se saber projetar, realizar um aproveitamento de corte nas chapas desejadas, e voilà, seu pedido será entregue na sua casa, faltando somente a montagem, que com máquinas portáteis e acessíveis você mesmo pode fazê-la. Um pouco disso é feito por essas grandes lojas para facilitar o transporte, paga-se um preço menor mas o próprio usuário deve montar o projeto, com um auxílio de um manual e peças enviadas pelo fabricante.

Num mundo tão conectado e rápido era de se esperar que a marcenaria se tornasse de todos.



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