O que foi a Bauhaus, a escola que uniu artes, design, arquitetura, marcenaria e tudo mais

Atualizado: Jul 20

A Bauhaus foi uma escola de artes situada na Alemanha que revolucionou o método de ensino e até hoje é uma referência para as escolas de design e arquitetura mundiais.

A frase "O objetivo final de toda atividade plástica é a construção! " foi escrita pelo fundador Walter Gropius em 1919 em uma transformada Alemanha. Em um folheto de tamanho A4 foi publicado seu manifesto que expressava as aspirações da escola. Nele Gropius (Diretor da Bauhaus) chama para uma união arquitetos e artistas e prega um retorno ao artesanato.


Um ano após o centenário da escola resolvemos compartilhar com você um pouco da dessa história e porque quem está ligado ao movimento maker, ao diy ( faça você mesmo ), ou simplesmente quem gosta de marcenaria, cerâmica, tecido, belas artes e até mesmo teatro podem se inspirar nesse local como um ponto de partida para que se possa criar algo maior.

O que veremos nesse post:

Contexto histórico da criação da escola

O manifesto da Bauhaus

A história da escola e suas fases

Influências da Bauhaus

Objetos icônicos da Bauhaus

Fontes de pesquisa e referência do tema


Contexto histórico da criação da escola

Para se entender o que foi a Bauhaus é preciso primeiramente entender o contexto em que ela está inserida. A Europa passava pela revolução industrial que trouxe desastrosas consequências para as condições de vida da classe trabalhadora (grande parte dela antigos artesãos que se viram obrigados a trabalhar na indústria) e também para os bens manufaturados. O que começou na Inglaterra foi chegar depois na Alemanha, um aumento do proletariado e a fabricação de produtos manufaturados mais baratos e racionados, uma produção mais rápida de produtos de uma qualidade pior.

Um crítico desse sistema John Ruskin questionava a precarização da vida e pregava uma volta aos trabalhos medievais, e com seu pupilo e admirador William Morris passou a dar workshops para a reconstrução de todo produto moderno, cada cadeira, cada talher deveria ser refeito. O sucesso inundou a Europa e o movimento é batizado hoje de Arts & Crafts. O movimento foi tão grande que em toda a Europa passaram a surgir guildas, espaços compartilhados que reuniam os artesãos em busca de um espaço de produção e senso de comunidade, como os makerspaces de hoje. Inovador hein! Museus de belas artes e escolas por toda a Europa passaram também a lecionar e expor as artes aplicadas ou artesanato.


No período pré Primeira Guerra a Alemanha passava por um movimento de contra cultura e a nova geração apontava para uma reforma política, que pleiteava uma vida mais livre e temas como emancipação feminina. Em termos de artes o Werkbund e os artistas do modernismo alemão estavam procurando meios de conciliar arte e indústria.

Em 1915 Gropius foi indicado para ser diretor da Escola de Arts & Crafts de Weimar, mas a escola logo foi fechada. Cotado pelo governo também para comandar a Escola de Belas Artes de Weimar em 1917, Gropius teve seu projeto aprovado de remodelar totalmente o ensino da instituição englobando a antiga Escola de Arts & Crafts e a de Belas Artes, chamando as duas de "Staatliches Bauhaus in Weimar", Casa da Construção do Estado em Weimar.



O manifesto da Bauhaus


O manifesto publicado por Gropius em toda a Europa estabelecia o programa e os objetivos da nova escola.


Por Walter Gropius

Weimar, abril de 1919


O objetivo final de toda atividade plástica é a construção! Ornamentá-la era, outrora, a tarefa mais nobre das artes plásticas, componentes inseparáveis da grande arquitetura. Hoje elas se encontram  em singularidade autossuficiente, da qual só poderão ser libertadas um dia através da consciente atuação conjunta e coordenada de todos os profissionais. Arquitetos, pintores e escultores devem conhecer e compreender de novo a estrutura multiforme da construção em seu todo e em suas partes; então suas obras se preencherão outra vez do espírito arquitetônico que se perdeu na arte de salão. As antigas escolas de arte não eram capazes de criar essa unidade, e como poderiam, já que a arte não pode ser ensinada? É preciso que elas voltem a ser oficinas. Esse mundo de desenhistas e artistas deve, por fim, tornar a orientar-se para a construção. Se o jovem que sente amor pela atividade plástica começar, como outrora, pela aprendizagem de um ofício, o "artista" improdutivo não ficará condenado futuramente ao exercício incompleto da arte, pois sua habilidade será preservada para a atividade artesanal, onde poderá prestar excelentes serviços.


Manifesto da Bauhaus / Reprodução

Arquitetos, escultores, pintores, todos devemos retornar ao artesanato, pois não existe "arte por profissão"! Não existe nenhuma diferença essencial entre o artista e o artesão. O artista é uma elevação do artesão. A graça divina, em raros momentos de luz que estão além de sua vontade, inconscientemente faz florescer arte da obra de sua mão, entretanto, a base do "saber fazer" é indispensável para todo artista. Aí se encontra a fonte primordial da criação artística. Formemos, portanto, uma nova corporação de artesãos, sem a presunção elitista que pretendia criar um muro de orgulho entre artesãos e artistas! Desejemos, imaginemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que juntará tudo numa única forma: arquitetura, escultura e pintura que, feita por milhões de mãos de artesãos, se elevará um dia aos céus como símbolo cristalino de uma nova fé vindoura.


A história da escola e suas fases


Weimar (1919-1923)


Prédio da Bauhaus em Weimar / Reprodução

A Bauhaus teve início no ano de 1919 sua primeira fase em Weimar, uma pequena cidade na qual também se estabelecia a primeira república alemã, conhecida como República de Weimar, que teve por coincidência o mesmo tempo de duração que a escola (1919-1933) e sempre foi ligada à vanguarda.


Em uma sociedade onde as mulheres não tinham muita liberdade em termos de estudo e trabalho, o diretor da escola fez questão de incluí-las no corpo discente do local, sendo cerca de 50% dos alunos do sexo feminino. Apesar disso ainda existia na escola um machismo institucional, onde poucas mulheres conseguiam frequentar oficinas como marcenaria e serralheria e eram empurradas à temas considerados pelos diretores mais femininos como cerâmica e tecelagem. Apesar disso existem inúmeras mulheres que se tornaram expoentes da escola: Anni Albers, Marianne Brandt ( uma das poucas a conseguir frequentar a oficina de serralheria), Gunna Stolz e Lilly Reich são alguns exemplos.

Com o objetivo de unir arte e indústria, unificando o que era considerado uma arte menor: as artes aplicadas, às belas artes, a escola tinha workshops e ateliers voltados para a prática manual, como cerâmica (uma das primeiras a ficar totalmente equipada), marcenaria, pintura, costura, serralheria, entre outros, muito influenciada ainda pelo movimento de Arts & Crafts.


Outro exemplo de vanguarda era o método de educação entre mestres (professores), aprendizes (alunos) e jovens mestres (alunos mais avançados), o que permitiu uma maior colaboração e uma união de pensamento de toda a escola. Entre o corpo docente da escola passaram nomes de peso como Wassily Kandinsky, Paul Klee, Ludwig Mies van der Rohe, entre outros. Dentro do método de educação se destacava a temática das matérias ensinadas e como elas interferiam em toda a vida da pessoa, não somente profissional. Eram dadas aulas de marcenaria, cerâmica, costura, trabalhos em metal, arquitetura, design gráfico, tipografia, teatro e até mesmo ioga. Tudo para que os alunos conseguissem o máximo de potencial criativo


A Bauhaus pregava uma linguagem de negação ao que estava estabelecido em termos produtivos e visuais. Tudo tinha que ser repensado e projetado de acordo com a sua função, nada mais que isso, sem ornamentos, sem artes desnecessárias. Podemos ver até hoje muitos exemplos de produtos e prédios erguidos durante e sob influência da escola que continuam sendo usados, e continuam sendo vistos como referência.


A escola apesar de tanto inovadora tinha muita rejeição de parte da população da cidade mais voltada para o partido nacional socialista alemão, mais tarde conhecido como partido nazista. Sua metodologia inovadora, inserção de mulheres que andavam pela cidade com cabelos curtos, alunos que se vestiam com roupas diferentes e coloridas, apresentações teatrais diferentes eram vistas por essa parcela como obra dos comunistas. Com a eleição do partido na cidade a escola teve que mudar de sede indo para Dessau.


Dessau (1925-1932)


Dessau foi escolhida por ser uma cidade mais industrializada, onde a Bauhaus poderia fazer parcerias para produção em massa dos produtos desenvolvidose por ser uma cidade com uma população mais "tolerante" e que ainda não havia sido tomada pelos nazistas. Foi lá que a Bauhaus viveu sua melhor fase.


Exibição de Teatro na Bauhaus / Reprodução

Com dinheiro em caixa a escola conseguiu projetar um prédio com todas as características que precisava, diferente de Weimar, onde era abrigada em um antigo museu de belas artes. O prédio projetado por Gropius é uma maravilha moderna arquitetônica e integrava, dormitórios, salas de aula, palcos de teatros, refeitórios, tudo em um só lugar.


Prédio da Bauhaus em Dessau / Reprodução

Durante essa fase a escola mudou um pouco seu rumo passando de uma produção mais artesanal para o enfoque em um produção massificada, fazendo parceria com as indústrias locais, onde até os trabalhadores mais humildes teriam como arcar com prédios e produtos feitos na escola. Nesse período foram projetadas e feitas pela Bauhaus casas mais baratas, acessíveis a trabalhadores e mais compactas, com desenho totalmente diferente das casas normais para a época. O projeto arquitetônico pensava na iluminação, acesso à terraço, jardim, formas simples e atemporais que em grande parte usavam itens pré fabricados. A construção era feita também em larga escala para redução do preço, então quarteirões inteiros eram construídos de uma só vez.


Os móveis passaram a ser cada vez mais leves e com materiais de fácil manipulação para a indústria. A cadeira de Marcel Breuer feita para a fábrica Thonet é um bom exemplo, recriando o que antes era feito em madeira para tubos de alumínio.


Cadeira B33 Marcel Breuer para Thonet / Reprodução

Em 1927 o diretor e fundador Walter Gropius deixa a escola para dar lugar à Hannes Meyer na direção. Este ficou somente dois anos e mudou radicalmente a escola. Foi sob seu período que a escola passou a ter uma maior inclinação política para a esquerda, por influência do diretor. Sendo visto como uma influência comunista Meyer teve que deixar o cargo e quem assumiu foi Mies van der Rohe.


Foi sob direção de van der Rohe que a escola deixou de ter um viés político, passando a focar agora exclusivamente nos projetos. Apesar disso a escola teve que novamente se mudar, pois os nazistas ganharam a eleição na cidade e fecharam a escola.


Berlim (1932-1933)


Em Berlim a escola durou pouco tempo, com a ascensão dos nazistas a instituição agora era totalmente financiada com capital privado, a maior parte saía do bolso do próprio van der Rohe.


O ambiente já não era o mesmo e muitos alunos haviam já deixado a Bauhaus por conta da perseguição que sofriam. Os mestres decidiram pouco tempo depois da mudança então optar pelo fechamento da escola.


Influências da Bauhaus


Com o fechamento da escola seus alunos e professores (mestre e aprendizes) se espalharam pelo mundo. Muitos como Gropius e Van der Rohe foram para os Estados Unidos construindo prédios e arranha céus.


Chicago Federal Center de Mies van der Rohe / Reprodução

Alguns outros como o israelense Arieh Sharon projetou o campus da Universidade de Ilfe na Nigéria, o mais belo campus da África. Alguns continuaram na Alemanha e até colaboraram com o regime nazista, muitas de suas propagandas eram feitas em cartazes e pôsteres com nítida influência visual da Bauhaus.


Universidade de Ife, Nigéria / Reprodução

O estilo arquitetônico e até hoje difundido e seus prédios tem ainda um visual moderno, ou seja não parecem que estão fora de sincronia com os tempos vividos hoje. Por não utilizarem apelos estéticos, adereços e adornos desnecessários os prédios tem desenho atemporal e podem se misturar com qualquer época, desde um século atrás.


A Bauhaus também influenciou muitas escolas voltadas para a arquitetura e design como a Escola De Ulm, posteriormente instaurada na Alemanha que tentou reintroduzir os conceitos da Bauhaus em um novo contexto. No Brasil podemos citar a ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) hoje vinculada a UERJ.


Em relação ao mercado podemos dizer que a Bauhaus foi uma das primeiras escolas a adotar práticas de massificação da produção de móveis, objetos e até residências. Muitas marcas se inspiraram em transformar o design em um item acessível para as classes mais baixas, como por exemplo a Ikea.


Durante a experiência da Escola de Ulm houve uma colaboração entre ela e a famosa marca alemã de eletrodomésticos Braun. Inspirada pela Bauhaus a escola ajudou a introduzir os produtos da marca no mercado, e anos depois essa marca foi inspiradora da marca de aparelhos eletrônicos mais famosa do mundo a Apple. Ou seja, indiretamente o visual e simplicidade da estética Bauhaus inspirou produtos que ainda hoje são os maiores do mercado.


Rádio SK2 feito pela Braun / Reprodução

Alguns críticos responsabilizam ainda a cultura atual de consumo à experiência desenvolvida pela escola alemã e aprimorada até os dias de hoje. Pelo lado positivo e negativo podemos dizer que essa escola muito nos influencia até hoje



Móveis e objetos da Bauhaus


A Escola foi conhecida por praticar um estilo moderno com princípios de simplicidade, sem adornos e adereços desnecessários. ao longo de sua história, mestres e aprendizes da Bauhaus produziram ícones do design como a cadeira inspirada em bicicleta Wassily Chair de Marcel Breuer, passando por padrões têxteis de Anni Albers.


Wassily Chair de Marcel Breuer / Reprodução
Chair of wooden slats de Marcel Breuer / Reprodução
Nesting Tables de Josef Albers / Reprodução
Berço com formas e cores primárias de Peter Keler / Reprodução
Tabuleiro de Xadrez de Josef Hartwig / Reprodução
Padronagem Têxtil de Anni Albers / Reprodução
Padronagem Têxtil de Gunta Stolz / Reprodução
African Chair, colaboração de Marcel Breuer e Gunta Stolz / Reprodução

Conjunto de chá de Marianne Brandt / Reprodução
Bauhaus Lamp de Wilhelm Wagenfeld e Carl Jakob Jucker / Reprodução
Mobiliário do pavilhão Barcelona de Mies Van der Rohe e Lilly Reich / Reprodução


Fontes de pesquisa e referência do tema














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